• Lis Selwyn

The L Word e a importância de debatermos o abuso em relacionamentos lésbicos e bissexuais

No último mês me comprometi a assistir The L Word da primeira à última temporada, e logo nos primeiros episódios senti que precisava falar sobre esta série. Nada melhor do que estrear por aqui falando sobre a primeira grande representatividade lésbica que tivemos na televisão, não é mesmo?

Então, vamos lá!

The L Word narra a história de mulheres lésbicas e bissexuais e suas aventuras e desventuras na cidade de Los Angeles. A série é composta por seis temporadas, e em novembro Shane, Bette e Alice prometem voltar com tudo (se você ainda não assistiu ou quer matar as saudades, todas as temporadas estão disponíveis na Globo Play... Vale a pena maratonar!).

Não foi meu primeiro contato com a série, confesso: anos atrás eu assisti a alguns episódios da primeira e da segunda temporada. Mas fico feliz em ter conseguido concluir a série só agora.

A série é ótima e sem sombra de dúvidas foi à frente de seu tempo. Além de trazer protagonistas lésbicas, bissexuais e transsexuais, abordou temas importantes e pouco discutidos, até mesmo nos dias de hoje, como maternidade lésbica, bissexualidade, depressão, relacionamento não-monogâmico entre outros. Mas, de todos os temas, o que mais me chamou atenção foram alguns relacionamentos da série.

Não é segredo para ninguém que durante muito tempo relacionamentos abusivos foram romantizamos. Se prestarmos atenção, até nos dias de hoje podemos escutar: “ah, se ela não sente ciúmes, é porque não te ama de verdade”. Não sei a partir de qual momento o ciúmes passou a ser medição para amor, mas a verdade é que ele não é. O relacionamento abusivo pode estar em um ciúmes excessivo, em um cuidado disfarçado ou até mesmo em uma crítica depreciativa. E me assusta ver pessoas idolatrando o casal Bette e Tina, por exemplo, mesmo depois da Bette mostrar-se abusiva, inclusive fisicamente, em relação à sua esposa.

Pouco se fala, mas na primeira temporada, por exemplo, Bette abusa sexualmente da Tina. E, alguns episódios depois, quando elas se encontram e o corpo da Tina já demonstra sinais da gravidez, ela age não só de forma abusiva, mas também gordofóbica, ao afirmar que ela estava feliz que a Tina tinha engordado, porque assim ninguém se sentiria atraída por ela.

<< spoiler alert - a seguir, temos alguns pequenos spoilers sobre casais que se formam ao longo da série >>

Mas Bette não é a única personagem a agir assim. Quando o relacionamento entre a Dana e a Alice chega ao fim, Alice não aceita e passa a perseguir a ex-namorada, assediando-a com inúmeras ligações telefônicas. Posteriormente, quase no final da série, vemos entre Jenny e Shane novamente traços de um relacionamento abusivo. Jenny é extremamente ciumenta e sufoca a namorada de inúmeras formas.

Se falamos pouco sobre relacionamento abusivo, sobre relacionamento abusivo nas relações lésbicas se fala menos ainda. E é importante que esse assunto seja falado e abordado em filmes, séries e livros. É importante que o assunto seja discutido na sua roda de amigos. Pois quanto mais falamos sobre isso, mais treinadas ficamos a identificar um relacionamento abusivo (e todos nós estamos sucetíveis a ele, e não só em relacionamentos amorosos, como em qualquer relacionamento, seja com um pai, uma mãe ou até mesmo um amigo).

Amor não é para doer, para fazer chorar o tempo todo, não é para fazer com que você se sinta sufocado. Amor não é cobrança, não é cuidado disfarçado de controle. Amor não é ter a visualização da mensagem no WhatsApp controlada, tampouco se sentir diminuída em uma relação.

Amor é para fazer bem. E todo o resto, o que faz mal, precisa ser repensado.

Lis Selwyin (@lisselwyn) vinte e oito anos, paulistana, formada em Nutrição e Direito e escritora nas horas vagas e não vagas. Começou a escrever contos e poemas em seu blog pessoal em 2011 e em 2015 se aventurou a publicar na internet seu primeiro romance lésbico: Amor & Liberdade. Autora dos livros: Entre Páginas, O Pacto, Valentina e Amor & Liberdade.

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