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O poder de fala (ou: quem está escrevendo?)

Vamos conversar um pouco sobre quem escreve e quem é publicado no Brasil?

Uma pesquisa desenvolvida por Regina Dalcastagne na Universidade de Brasília (UNB) mostra o perfil do escritor publicado nas grandes editoras brasileiras. A pesquisa estudou, dos anos 1990 a 2004, as três principais editoras do Brasil e concluiu que o perfil do escritor publicado no Brasil, em sua maioria, é:

Homem. Heterossexual. Branco. A pesquisa também apontou diversas outras características que já dá pra imaginar.

Isso é um pouco assustador porque essa realidade não reflete, de jeito nenhum, a pluralidade, a heterogeneidade da sociedade brasileira.

Tá. Essa pesquisa é de 2004, de lá pra cá com certeza muita coisa mudou, certo? Hum... Não sei não. Na verdade, eu acho que não. Talvez um pouco, mas não significativamente (pelo menos, não nas grandes editoras).

Vamos pensar na Literatura LGBT? Há algum tempo, eu li uma reportagem em uma grande revista nacional que falava sobre o surgimento e o crescimento da literatura LGBT nos livros das grandes editoras. Muito interessante, né? Seria, se essa matéria não mostrasse somente escritores homens, na sua grande maioria heterossexuais, brancos, classe média alta...

Já ouviu esse perfil?

Ou seja: a personagem LGBT começou a surgir nas grandes editoras, mas o perfil do escritor não mudou. A classe que detém o poder da palavra continua sendo a mesma.

E vou além: a reportagem sequer citou escritoras mulheres. Então, tomo a liberdade pra lembrar Virginia Woolf: em seu livro Um teto todo seu, ela aponta que a mulher sempre esteve presente na literatura. Como personagem, mas não como escritora. Ela está presente como a mulher musa inspiradora, a mulher dona de casa, a mulher escrita por um homem.

Virginia afirma que, até sua época, qualquer mulher que tentasse escrever era tida como louca ou viveria uma vida enclausurada, isso se conseguisse escrever. Ela ainda brinca: se Shakespeare tivesse uma irmã com as mesmas condições de escrever que ele, ela nunca teria escrito o que ele escreveu porque ela não teria tido a mesma oportunidade de estudo que ele, o mesmo convívio social que ele ou os mesmos incentivos. Ela nunca teria escrito o que ele escreveu.

Entendeu o paralelo com a Literatura LGBT? As personagens existem, mas e o escritor e a escritora LGBT? Onde eles estão?

Nas pequenas editoras, nas publicações independentes, nas edições de resistência. Nesses livros, publicados longe dos holofotes da grande mídia, o poder de fala está com aquele que vive aquilo que está sendo falado. E isso é muito importante.

Mas a gente fala sobre isso no próximo post.... ;)

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